Há um problema que corrói a vida espiritual de muitos católicos que se levam a sério, mas raramente é nomeado: viver como se Deus estivesse ausente justamente onde passamos a maior parte do dia.

Na missa, Ele está “presente”. No terço, também. No grupo de oração, idem. Mas na tela aberta no trabalho? Na conversa tensa com o chefe? No café da manhã rápido antes de sair de casa? É como se Deus voltasse para o “modo silencioso”.

Deus fica confinado a horários, lugares e práticas “religiosas”; o resto do tempo, quem manda somos nós, nossa pressa, nossas ansiedades, nossa agenda. 

A vida espiritual fica reduzida a ilhas de devoção cercadas de esquecimento por todos os lados.

O resultado você deve conhecer: 

Devoções que não mudam o caráter; 

– Cansaço espiritual; 

– Sensação de que “rezo, mas não saio do lugar”; 

– Vida dividida em “momento de Deus” e “vida real”. 

É aqui que entra um carmelita leigo, cozinheiro de mosteiro e sapateiro, do século XVII: Frei Lourenço da Ressurreição, autor de A prática da presença de Deus. 

Ele não oferece “truques”, mas um caminho de combate interior, simples e árduo, que toca exatamente nesse ponto: aprender a viver como quem sabe, de fato, que Deus está aqui. Agora. 

 

E isso muda tudo. 

 

 

A resposta de Frei Lourenço: presença de Deus como eixo da vida 

 

O coração do caminho de Frei Lourenço pode ser resumido em duas ideias muito simples, mas exigentes: 

 

1) Deus está realmente presente em você  

Não como metáfora, não como “força do bem”, mas como o Deus vivo que habita a alma em graça. Ele não está apenas no sacrário da igreja; está — em modo diverso, mas real — no “sacrário” da sua alma batizada. 
 

2) Você pode viver conscientemente nessa presença  

Não o tempo todo com emoção, mas com um hábito estável de fé: uma lembrança amorosa, discreta, mas firme, de que Ele está aqui, e de que tudo o que você faz pode ser oferecido a Ele. 

 

Frei Lourenço chama isso de “conversa silenciosa e familiar com Deus”, que atravessa o dia todo.1 Não é uma oração “paralela” à vida; é a vida mesma convertida em oração. 

 

Ele descreve assim o que aprendeu a fazer: 

 

> “A prática mais santa, mais comum e mais necessária na vida espiritual é a presença de Deus; isto é, desfrutar habitualmente de sua divina companhia, falando-lhe humildemente e conversando com Ele amorosamente em todas as ocasiões, a cada minuto…”2 

 

Perceba a ordem: 

Não começa com grandes resoluções heroicas, mas com pequenos atos interiores, contínuos, nos quais o coração se volta a Deus no meio da tarefa, não só antes ou depois. 

 

É aí que o “Deus das panelas”, de Santa Teresa, aparece de novo: um Deus encontrado na frigideira, no teclado, na fralda do bebê, na reunião de orçamento. 

 

O que impede essa presença? 

 

Muita gente, ao ouvir falar de “presença de Deus contínua”, reage com uma objeção automática: “Não dá. Minha vida é corrida demais.” 

 

É honesto dizer isso. Mas, à luz do Evangelho, também é preciso reconhecer: o problema central não é a falta de minutos, é a falta de vontade em mudar o modo de viver esses minutos. 

 

Frei Lourenço é direto: para viver na presença de Deus, é preciso renúncia e combate. Não é romantismo contemplativo. 

 

Ele fala em: 

– “renúncia sincera a tudo que nos impede de chegar a Deus”;3 

– “mortificação dos sentidos”; 4 

– “submissão do coração e do espírito à vontade de Deus”. 5 

 

Isso significa, na prática: 

 

• Renunciar ao hábito de se distrair o tempo todo  

Não é proibir todo descanso ou entretenimento, mas é deixar de tratar cada segundo livre como ocasião para preencher a mente com ruído. A presença de Deus precisa de espaços de silêncio interior. 

 

• Renunciar ao drama interno a respeito de tudo  

Grande parte de nossas “preocupações” são repetições mentais que não mudam nada. A presença de Deus corta esse teatro: eu me volto a Ele, apresento o assunto, faço o que depende de mim e paro de me alimentar do meu próprio drama. 

 

• Renunciar ao apego à própria imagem espiritual  

Muitos querem “sentir Deus” mais do que qerem obedecer a Deus. Frei Lourenço chega a pedir que Deus lhe tire as consolações, contanto que lhe deixe a possibilidade de amá-Lo de verdade. Isso é maturidade na vida espiritual. 

 

É árduo? Sim. Mas não é complicado. A simplicidade do caminho não é simplismo; é a simplicidade de quem eliminou o supérfluo. 

 

*** 

 

  1. Como começar, concretamente, a viver na presença de Deus 

 

A proposta do livro A prática da presença de Deus é unir doutrina, experiência e ação concreta. A seguir, alguns conselhos práticos, fiéis ao texto, que podem ser aplicados hoje mesmo. 

 

4.1. Mudar o objetivo do dia 

 

Se o objetivo tácito do seu dia for “dar conta de tudo” ou “evitar problemas”, a presença de Deus será sempre um acessório. 

 

Frei Lourenço propõe outro eixo. Uma de suas máximas começa assim: 

 

> “Ter sempre em vista Deus e a sua glória no que fazemos, dizemos e empreendemos; que o fim que nos propomos seja tornar-nos os mais perfeitos adoradores de Deus nesta vida, como esperamos sê-lo por toda a eternidade.”6 

 

Tradução prática: 

– Antes de levantar-se, faça um ato explícito: “Senhor, hoje quero ser teu adorador: em tudo, do café ao último pensamento do dia.” 

– Volte a isso ao longo do dia: “Estou fazendo isso como adorador ou apenas como alguém que anda em círculos?” 

– Isso não tira eficiência; dá direção. Trabalhar para a glória de Deus não é fazer menos, é fazer melhor, com outra intenção. 

 

4.2. Inserir microatos de presença em pontos fixos 

 

Não é possível manter um discurso mental ininterrupto com Deus, durante todo o dia. 

 

O que você pode fazer é plantar “pontos de retorno” ao longo do dia. Frei Lourenço sugere algo muito simples: interromper brevemente as tarefas para um ato de adoração interior.7 

 

Por exemplo: 

 

• Ao acordar:  

Antes de pegar o celular: “Meu Deus, estais aqui. Este dia é vosso. Fazei de mim o que quiserdes.”  

(Leva segundos. Mas define o tom da jornada.) 

 

• Ao iniciar um trabalho:  

“Senhor, vou responder estes emails. Ajudai-me a fazê-lo com verdade, justiça e paciência. Que seja por vós.” 

 

• No meio da confusão:  

“Meu Deus, vede como sou fraco. Se me deixais a sós, só posso estragar. Sustentai-me agora.”8 

 

• Entre uma tarefa e outra:  

Um simples olhar interior: “Vós estais em mim.” Sem precisar de frases em voz alta, só consciência. 

 

No início, isso será muitas vezes esquecido. Não importa. O próprio Frei Lourenço conta que, nos primeiros anos, se distraía com frequência e passava o tempo de oração “afastando pensamentos erráticos”. O que o mudou foi a decisão de, sempre que notava o esquecimento, “voltar sem drama”. 

 

4.3. Lidar com distrações sem escrúpulo 

 

Uma das grandes armadilhas desse caminho é o perfeccionismo espiritual: “Se não consigo manter a presença de Deus perfeitamente, então não adianta tentar.” 

 

Isso não é humildade, é orgulho ferido. 

 

Frei Lourenço é extremamente concreto aqui. Ele recomenda: 

– Reconhecer a distração humildemente; 

Ronfessar a Deus sem longas justificativas; 

– Recomeçar imediatamente, com paz.9 

 

No fundo, ele nos proíbe de fazer da própria miséria o centro da vida espiritual. O centro é Deus. 

 

Um conselho prático: 

– Quando perceber que passou uma hora imerso em preocupações e sem lembrar de Deus, diga simplesmente: “Senhor, esqueci-me de vós de novo. É assim que sou quando me deixais por minha conta. Perdoai-me. Aqui estou.”  

E siga. A fidelidade está mais em voltar mil vezes do que em não cair. 

 

4.4. Unir sofrimento e presença 

 

Mais cedo ou mais tarde, a memória de Deus vai tocar o ponto que mais tentamos anestesiar: o sofrimento — físico, psicológico, moral. 

 

Frei Lourenço não romantiza a dor. Ele sofreu longos anos de aridez, angústia e doença. Mas aprendeu algo objetivo: sofremos de modo diferente quando sabemos diante de quem sofremos. 

 

Nas cartas finais, já à beira da morte, ele escreve a uma religiosa doente que “gostaria que entendesses que Deus muitas vezes está mais perto de nós e mais efetivamente presente conosco na doença do que na saúde”.10 

 

Algumas atitudes práticas inspiradas nele: 

 

• Não pedir, de imediato, a retirada de toda dor  

Antes de suplicar alívio, dizer: “Senhor, se esta cruz vem de vossas mãos, ensinai-me a carregá-la convosco. Se quiserdes, tirareis. Se não, ficarei aqui, mas convosco.” 

 

• Transformar a crise em lugar de encontro  

Na ansiedade, dizer: “Meu Deus, eu vos adoro em minhas enfermidades… deixai-me sofrer um pouco por vós.”  

Não se trata de buscar sofrimento, mas de não o desperdiçar quando chega. 

 

• Lembrar que o purgatório começa aqui  

Para quem tenta viver na presença de Deus, as dores desta vida podem purificar desde já. Isso muda o modo de olhar para uma humilhação, uma doença, um fracasso profissional: deixam de ser apenas “injustiças” e passam a ser matéria de santidade. 

 

4.5. Combinar presença de Deus e dever de estado 

 

Há o risco de distorcer essa prática em fuga: esconder-se “em Deus” para não encarar responsabilidades. 

 

Frei Lourenço viveu o contrário disso. Ele não abandonou a cozinha; faz melhor a cozinha. Não fugiu do encargo de comprar vinho, apesar de ser coxo e desajeitado; foi, com espírito de serviço. 11 

 

Critério simples: 

– Se a sua “presença de Deus” o torna menos disponível à família, mais relaxado no trabalho, mais descuidado nas obrigações, então não é presença de Deus; é auto absorção religiosa. 

 

Verdadeira presença: 

Clarifica as prioridades (amar a Deus em tudo e cumprir o dever de estado com retidão); 

– Dá serenidade, não preguiça; 

– Torna o cristão mais confiável, não mais excêntrico. 

 

*** 

 

5. O que se pode esperar desse caminho 

 

O caminho de Frei Lourenço é sério demais para ser reduzido a “5 passos para sentir Deus”. 

 

Mas ele mesmo testemunha, com uma sobriedade impressionante, os frutos de uma vida inteira assim vivida: 

 

– Unidade interior: o tempo da ação já não difere do tempo da oração;  

– Paz estável: dez anos de desolação deram lugar a quarenta anos de “conversa contínua com Deus”;  

– Liberdade real: não teme a morte, o juízo, o inferno, porque se abandonou inteiro ao Senhor;  

– Caridade concreta: cozinha, costura, compra o vinho, consola pobres, aconselha com simplicidade — tudo por amor a Deus. 

 

Nada disso é privilégio de monge do século XVII. O Papa Leão XIV, ao mencionar esta obra que marcou sua vida espiritual, reconhece que o caminho é “simples e árduo”: simples, porque feito de pequenos atos de memória e amor; árduo, porque exige purificação de pensamentos, sentimentos, intenções. 

 

É um caminho acessível: 

– Ao pai de família que volta cansado do trabalho e encontra o caos da casa; 

– À jovem profissional em ambiente hostil à fé; 

– À mãe que passa o dia entre fraldas, panela e reuniões online; 

– Ao estudante cercado de distrações digitais; 

– Ao idoso que carrega doenças e solidões. 

 

Não se trata de acrescentar mais uma devoção à lista. Trata-se de deixar que tudo — absolutamente tudo — seja atravessado pelo olhar de Deus. 

 

*** 

 

  1. Um próximo passo concreto (e maduro) 

 

Se você se percebe nesse problema — fé confinada às “zonas sagradas” e ausente na vida miúda — disfrutará de uma companhia confiável para reeducar a sua atenção e o seu coração. 

 

É exatamente assim que A prática da presença de Deus funciona: não como manual de técnicas, mas como a convivência com alguém que aprendeu, na dor e na alegria, a permanecer diante de Deus. 

 

O livro reúne: 

– O elogio escrito por quem o conheceu de perto, que mostra as provas e escolhas de Lourenço (inclusive anos de trevas interiores);  

– Quatro colóquios em que ele mesmo, com simplicidade desconcertante, explica seu caminho;  

– Dezesseis cartas em resposta a pessoas concretas (religiosas, leigos, um soldado) cheias de conselhos práticos;  

– Máximas espirituais curtas, que ajudam a memória e servem como exame diário. 

 

É um livro para ser lido devagar, relido, sublinhado. 

 

A proposta, em última análise, é esta: 

– Deixar de ser católico de momentos para tornar-se adorador em tudo; 

– Parar de viver como órfão espiritual entre uma oração e outra; 

– Experimentar, já aqui, algo do que o Papa chama de “antecipação do Paraíso”: a alegria de saber que, se Deus está presente, nenhuma circunstância é terra neutra. 

 

Deus não se ausenta. Quem se ausenta somos nós. 

 

Com Frei Lourenço é possível aprender a arte esquecida de estar sempre sob o olhar de Deus. Se você quer viver assim, esse pequeno clássico carmelita é um bom lugar para começar com seriedade e esperança.